30 de novembro de 2016

Se eu pudesse

se eu pudesse eu fugia agora
com a roupa do corpo
trocava de coração
sumia
se eu pudesse mudava pra uma cidade
onde ninguém soubesse o meu nome
e eu não soubesse o nome de ninguém
me perdia na multidão
seria uma em muitas
e muitas em uma
eu, que não tenho sido nada
só carne e dor
se eu pudesse apagava da memória
toda a merda que você me fez passar
toda culpa que eu nunca tive
mas você disse que eu tinha
todo grito que nunca dei
toda mão que te estendi
no meio do seu caos
se eu pudesse mergulhava meu peito em lava
tanto faz
já que tudo me atravessa queimando
se eu pudesse retirava
tudo que não te disse
não me maltratava
com tudo que não fui
se eu pudesse bebia menos
fumava menos
escrevia menos
(não posso)
se eu pudesse não me arrebentava tanto por você
caía fora do teu mundo
te expulsava do meu
e ficava por isso mesmo
se eu pudesse voltava a ser louca
descontrolada
saía xingando quem tá me machucando
quebrava copos no meio da avenida
trepava com outra pessoa pra esquecer
se eu pudesse desaproximava a gente
me ocupava desfazendo esses nós que você criou
e nunca lembrou de tirar daqui
o problema nunca é o beijo que não foi dado
o beijo não vem da boca
aprendi num livro
o problema é segurar
o peso de uma alma que você não aguenta
vivo transbordando
é impossível
não escorrer pelos (desen) cantos
dos seus dedos
o que dói é hoje
ontem e amanhã
nem quero mais.

(Autor desconhecido)